A Arte da Tábua Celestial dos Anjos

 

Entre os cinco livros que compõem a tradição clássica da Lemegeton Clavicula Salomonis (A Chave Menor de Salomão), o Ars Almadel talvez seja o mais singular e menos conhecido. Enquanto a Ars Goetia trata da evocação dos setenta e dois espíritos, a Ars Theurgia-Goetia trabalha com espíritos aéreos, a Ars Paulina explora as inteligências zodiacais e planetárias, e a Ars Notoria busca a iluminação intelectual por meio de orações sagradas, o Ars Almadel apresenta um sistema inteiramente voltado para o contato com os anjos das Alturas Celestes.

 

Seu propósito não é comandar espíritos inferiores, mas estabelecer uma comunicação reverente com inteligências angélicas pertencentes aos diferentes níveis do Céu.

 

A origem do Almadel

O nome Almadel provavelmente deriva do árabe al-mandal ("círculo" ou "mandala"), embora sua forma atual tenha sido preservada nos manuscritos mágicos medievais ingleses que deram origem à Lemegeton.

 

O coração do sistema é uma pequena placa quadrada de cera branca chamada Almadel, construída segundo medidas e proporções específicas. Sobre essa placa são inscritos nomes divinos, caracteres sagrados e quatro velas são colocadas em seus cantos.

 

O Almadel torna-se, assim, um verdadeiro altar portátil, uma espécie de "janela" entre o mundo material e os céus angélicos.

 

Um sistema exclusivamente angélico

Diferentemente da Goécia, onde o operador convoca espíritos para uma manifestação controlada, no Ars Almadel toda a operação possui um caráter litúrgico.

 

O magista:

prepara-se ritualmente;

purifica o ambiente;

confecciona o Almadel;

acende as quatro velas;

utiliza perfumes específicos;

recita as orações prescritas;

aguarda humildemente a manifestação dos anjos.

 

Os textos enfatizam que os anjos não são compelidos por ameaças ou constrangimentos. Eles respondem apenas quando a operação é realizada com pureza, reverência e em conformidade com a vontade divina.

 

As Quatro  Altitudes

Uma das características mais fascinantes do Ars Almadel é sua cosmologia.

 

O Céu é dividido em quatro Altitudes, cada uma correspondendo a um domínio celeste governado por um grupo específico de anjos.

 

Cada Altitude possui:

 

seus próprios governadores;

príncipes angélicos;

ministros;

funções espirituais;

períodos adequados de evocação.

 

Essas quatro Altitudes não representam apenas regiões do espaço, mas diferentes níveis de manifestação da inteligência divina.

 

Em linguagem cabalística moderna, poderíamos compará-las, de forma aproximada, a diferentes estados de consciência ou diferentes planos de manifestação espiritual, embora essa equivalência não apareça explicitamente nos manuscritos originais.

 

Os anjos do Ars Almadel

Cada Altitude possui uma hierarquia composta por inúmeros anjos.

 

Entre seus atributos tradicionais encontram-se:

 

revelação de conhecimentos ocultos;

esclarecimento de dúvidas espirituais;

orientação sobre vocação e missão;

auxílio em estudos;

fortalecimento da fé;

proteção durante viagens;

instruções sobre assuntos futuros;

inspiração para obras espirituais;

compreensão das Escrituras;

auxílio em operações mágicas legítimas.

 

O objetivo principal, contudo, nunca é a obtenção de riquezas ou poder pessoal, mas o crescimento espiritual do operador.

 

O Almadel de Cera

A peça ritualística possui uma construção extremamente específica.

 

Tradicionalmente é confeccionada em:

 

cera branca pura;

formato quadrado;

espessura determinada pelo texto;

quatro orifícios destinados às velas;

caracteres e nomes gravados cuidadosamente.

 

Sobre ela repousa uma pequena taça ou recipiente que recebe o perfume ritual.

 

Quando o incenso aquece, a fumaça sobe através do centro do Almadel, simbolizando a ascensão da oração e servindo como veículo para a manifestação angélica.

 

Essa imagem é profundamente simbólica: o operador permanece abaixo, a fumaça sobe, e a resposta desce das Alturas.

 

O uso dos perfumes

 

O perfume possui importância central.

 

Cada Altitude requer determinadas substâncias aromáticas.

 

Nos manuscritos encontram-se referências a:

olíbano;

mástique;

benjoim;

aloés;

âmbar;

outras resinas tradicionais.

 

O perfume representa a purificação do ambiente e a elevação da alma.

 

Um sistema contemplativo

Comparado a outros grimórios salomônicos, o Ars Almadel é surpreendentemente contemplativo.

 

Não encontramos:

 

círculos complexos;

ameaças aos espíritos;

correntes de constrangimento;

instrumentos de coerção.

 

Encontramos, em seu lugar:

 

silêncio;

oração;

contemplação;

luz;

perfume;

espera.

 

É um sistema que convida o operador a tornar-se receptivo à presença angélica, em vez de buscar dominá-la.

Relações com a Cabala Cristã

 

Embora o Ars Almadel não seja um texto cabalístico em sentido estrito, diversos estudiosos observam afinidades com a tradição da Cabala Cristã renascentista.

 

O uso de:

 

Nomes Divinos hebraicos;

hierarquias angélicas;

simbolismo da luz;

purificação ritual;

contemplação mística;

 

aproxima sua prática da espiritualidade desenvolvida por autores como Johannes Reuchlin, Cornelius Agrippa e, posteriormente, pelos sistemas herméticos dos séculos XIX e XX.

 

Na tradição da Golden Dawn, embora o Ars Almadel não faça parte do currículo ritual oficial, seus princípios dialogam naturalmente com práticas de invocação angélica, trabalho com os quadrantes, Nomes Divinos e a ascensão da consciência por meio da Árvore da Vida.

 

O Ars Almadel na prática moderna

Hoje, muitos praticantes adaptam o sistema preservando seu espírito original, mas incorporando recursos da tradição hermética contemporânea, como:

 

preparação através do Ritual Menor do Pentagrama;

 

harmonização pelo Pilar do Meio;

 

uso das correspondências cabalísticas dos quatro mundos;

 

meditação nas letras hebraicas relacionadas aos Nomes Divinos;

 

registro detalhado das experiências em diário mágico.

 

Essas adaptações buscam integrar o grimório à disciplina iniciática moderna sem descaracterizar sua natureza essencialmente angélica.

 

Uma Arte da Luz

Entre todos os grimórios salomônicos, o Ars Almadel ocupa um lugar singular. Ele não promete domínio sobre legiões de espíritos nem oferece fórmulas para obtenção rápida de riquezas ou poder. Seu propósito é mais elevado: criar um espaço sagrado onde o praticante possa elevar sua consciência e buscar orientação junto às inteligências angélicas, em um encontro marcado pela reverência, pela pureza de intenção e pela contemplação.

 

Talvez seja justamente essa simplicidade que explique seu fascínio contínuo. Em vez de uma batalha entre o magista e as forças invisíveis, o Ars Almadel propõe uma liturgia da luz, na qual a cera, a chama, o perfume e a oração tornam-se instrumentos de aproximação com as Alturas Celestes. Para muitos ocultistas contemporâneos, ele permanece como um dos mais belos exemplos da magia angélica preservados na tradição salomônica.